quarta-feira, 17 de maio de 2017

CAMINHOS DA POEIRA


No olhar desatento não percebi o trieiro
Tudo agora é tão rápido e tão aplainado
Quase não se chama a atenção neste chão pouco marcado
Poucos são os caminhos que ainda passam junto ao cajuzeiro.

Em um distante horizonte ficou as flores
Longe o suficiente para não atrapalhar o caminhar
Passos largos em direção ao que se tenta insistentemente evitar
No canteiro, quase no escanteio, ainda vejo alguns tratores.

Na beira da estrada as placas indicam uma direção
Percorro assim os passos de um desconhecido qualquer
Lá somente é permitido parar quando o olho vermelho requer
Ilusão de condução, de paixão, de ausência de tempo de empadão.

No olhar desatento eu percebi que o Ipê ainda insistia em florescer
Encontrei cores destoantes do betume tão escurecido
E na sombra do marginal pequizeiro esperei no chão o fruto caído
Desfrutei, então, da poeira junto ao caminho, até o anoitecer.

[por Vinicius Seabra | escrito na verão de 2017]

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

UM SÁBADO QUALQUER


Reconheço que sou pequeno
Um aventureiro de horas intermitentes
Um barco a deriva de seus ventos
Reconheço que sou apenas eu,
Tentando descansar em quem Tu és:
O definidor das temporalidades a mim inconclusivas
O maestro de toda história vivida.

Reconheço que sou pequeno
Propositalmente criado para um fim que desconheço
Vergonhosamente fútil em minhas insobriedades
Reconheço que sou apenas eu,
Tentando descansar em quem Tu és:
O velejador de muitos cargueiros
O grande Rei que se assenta à mesa.

[por Vinicius Seabra | escrito na verão de 2017]

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

GENTE QUE JÁ FOI


Carro de boi... gente que já foi.
Nesta distante identidade de uma simplicidade de pequi com arroiz
Vamos pisar o chão, cantar um refrão e subir na carroça de boi
Ter saudade, ver possibilidades e encontrar a necessidade dos doiz
Carro de boi... é assim que a gente foi.

[por Vinicius Seabra | escrito na primavera de 2016]

sábado, 6 de agosto de 2016

SIGÉTICA


Preciso falar com os tempos de minha própria existência
Dialogar com as peripécias de minhas escolhas
Fracionar as mais lucidas intenções que me assombram
Dicotomizar em meu ser o que preciso ser.

Mesmo que um silêncio de mim se comunique
Ainda que sem palavras se possam escutar
Temendo sim as coisas não ditas
Sussurrando as desvirtues impronunciáveis.

Quisera um dia dizer o que em mim tanto sufoca
Não sabendo distinguir, nem conceituar tal sensação
Pois no vazio das verbalizações muitas palavras escondem
Destes e nestes hiatos, eu existo.

Numa contemporaneidade adormecida em prolixidades
Descortina a amputação da narratividade
E, desta informatividade muda se escuta minha banalidade
Doce tristeza de uma sinergia sigética.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2015]

quarta-feira, 20 de julho de 2016

PROSOPAGNOSIA


Lembro-me que houve alguns que fizeram parte.
São rostos de gente que insistiram em continuar,
Semblantes de histórias inconclusas que não terminaram,
Sorrisos distantes que embelezam sonhos perdidos,
E, resumem-se em expressões de auto-retratos.

Não me lembro de vários que comigo coexistiram.
São faces sem identidade de destinos dispersos,
Vagas aparências de quem se foi sem ser percebido,
Baixas frontes que cansadas abandonaram a guarita,
E, resiste-se numa sombra desforme do passado.

Talvez, até lembre-se deles, que por aqui passaram.
São fisionomias manchadas por lágrimas que queria esquecer,
Vultos de meus fantasmas mais aterrorizantes e perversos,
Testas marcadas com representações da reprovação,
E, retifica-se em cada novo poente próximo.

Finjo não lembrar daqueles que não deveria ter ido.
São máscaras propositais que impermeabilizam o tempo,
Figura de quem sempre estará presente, ainda que no passado,
Pinturas de pessoas emblemáticas, sofisticadas, enganadas,
E, lembro-me (-se) fosse possível viver outra vez.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2015]